Votação americana de terça pode redesenhar o cenário de Trump e reverberar no Brasil
Pleito marcado para a próxima terça-feira (3) renova a Câmara, parte do Senado e governos estaduais nos EUA, e o desfecho pode alterar o poder de Donald Trump e as relações com o Brasil.
Na próxima terça-feira (3), aproximadamente 210 milhões de pessoas aptas a votar nos Estados Unidos (EUA) irão às seções eleitorais para escolher os 435 integrantes da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 assentos do Senado. Além disso, o eleitorado definirá governadores em 36 dos 50 estados norte-americanos.
Esse resultado tem potencial para determinar o rumo do mandato do presidente Donald Trump na Casa Branca, já que os democratas têm chances de assumir o controle do Congresso. Uma mudança desse tipo produziria efeitos políticos que também atingiriam o Brasil.
A razão está na pressão que a oposição vem exercendo sobre o governo da Casa Branca. Parlamentares questionam supostas interferências de Trump em assuntos brasileiros, citando, por exemplo, o dinheiro enviado pelos EUA a campanhas contra o Supremo Tribunal Federal (STF).
Hoje, as duas câmaras legislativas são controladas pelos republicanos, mas com margem estreita. Essa situação dá ao presidente mais espaço para colocar suas propostas em prática sem grandes obstáculos.
Levantamentos de opinião apontam para uma vitória democrata, em parte por causa da elevação do custo de vida dos norte-americanos. A guerra que Trump começou contra o Irã é vista por analistas como um dos fatores da inflação, pois o preço dos combustíveis subiu depois que a navegação no Estreito de Ormuz foi restringida.
Nos últimos meses, a rejeição ao presidente americano cresceu e chegou a 61%, enquanto a aprovação ficou em 36%. Esses números correspondem a uma média de pesquisas calculada pelo jornal The New York Times.
Diante desse quadro pouco favorável, Trump anunciou que pagará US$ 5 mil a cada adulto do país caso os republicanos ganhem as disputas para a Câmara e o Senado. Nos últimos dias, ele percorreu diversos estados fazendo campanha em favor dos seus aliados.
Paulo Abraão, diretor-executivo da Brazil Office Alliance, organização que reúne pesquisadores brasileiros atuantes nos EUA, considera que o pleito determinará o grau de controle que o Legislativo exercerá sobre Trump.
"Se a oposição conquistar uma das Casas, poderá ampliar investigações, exigir explicações do governo e dificultar sua agenda legislativa. O controle da Câmara é particularmente relevante para a fiscalização", afirmou ele em entrevista à Agência Brasil.
Abraão acrescentou que, com o Senado, o Legislativo passa a ter a prerrogativa de aprovar ou recusar a indicação de autoridades e magistrados.
"Se os republicanos mantiverem as duas Casas, Trump terá condições políticas mais favoráveis para avançar sua agenda, embora isso não elimine divergências dentro do próprio partido", completou o diretor da Brazil Office Alliance.
Quanto ao processo de votação, Trump tem levantado uma sequência de questionamentos sobre a segurança do sistema eleitoral americano. Em 2020, depois de ser derrotado por Joe Biden, ele afirmou que houve fraude, sem apresentar qualquer comprovação.
Na semana passada, ao ser indagado por repórteres, Trump declarou que aceitaria o resultado "se forem eleições honestas".
Política externa
Existe a expectativa de que uma vitória dos democratas leve a alguma alteração na política externa dos Estados Unidos, sobretudo no que diz respeito à guerra no Irã. Para Paulo Abraão, a Presidência tem ampla liberdade de atuação nessa área, mesmo sem maioria no Parlamento.
"Um Congresso mais independente pode aumentar os custos políticos, fiscalizar decisões e disputar recursos, sem comandar a diplomacia", ressaltou o especialista.
Repercussão para o Brasil
Um eventual enfraquecimento de Trump, caso ele perca a maioria em uma ou nas duas Casas, tende a afetar também a relação entre EUA e Brasil, que já está marcada pelo tarifaço e por desentendimentos com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo Abraão, os democratas poderiam aprofundar a apuração sobre a atuação da família Bolsonaro nos Estados Unidos, revelando possíveis ligações com a administração Trump.
"Parlamentares democratas já vêm cobrando explicações [sobre supostas interferências de Trump no Brasil]. O ponto central seria esclarecer se instrumentos do Estado americano foram utilizados para favorecer um grupo político estrangeiro, por quais razões e sob quais fundamentos", argumentou.
Ele observa que uma comissão parlamentar poderia investigar a denúncia de que a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, teria beneficiado o candidato Flávio Bolsonaro na disputa eleitoral brasileira. A empresa de tecnologia justificou a redução do alcance das contas ligadas ao candidato Lula como "problemas técnicos".
"Uma mudança no controle do Congresso pode transformar cobranças, hoje expressas em cartas, em investigações com maior capacidade de produzir provas e exigir respostas. Isso não é automático, depende das prioridades da nova maioria e pode enfrentar resistência e disputas judiciais", concluiu Paulo Abraão, que também é professor de direito.
Nas semanas recentes, congressistas democratas têm enviado cartas à Casa Branca para questionar desde a atuação da Meta nas eleições brasileiras até a decisão de cassar o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Na quinta-feira (30), os democratas pediram esclarecimentos sobre um possível envolvimento da Casa Branca na saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do país, mesmo com a Justiça brasileira tendo vetado que o parlamentar deixasse o território. Flávio é réu em processos por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas.
Com informações de CAMPOS 24HORAS.
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