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Polícia

Dinheiro público de Belford Roxo chegou a firmas citadas em inquérito da PF

Cinco empresas citadas em investigação sobre lavagem de dinheiro receberam juntas R$ 28,9 milhões da prefeitura desde 2025, em contratos firmados na gestão de Márcio Canella.

Dinheiro público de Belford Roxo chegou a firmas citadas em inquérito da PF
Imagem da reportagem

Desde 2025, a gestão municipal de Belford Roxo desembolsou R$ 28,9 milhões em favor de cinco companhias que aparecem em uma apuração da Polícia Federal. A investigação trata de um suspeito mecanismo de lavagem de capitais com vínculo ao crime organizado. Os acordos comerciais foram celebrados na época em que Márcio Canella (União Brasil) comandava o Executivo, período em que ele foi detido em 15 de outubro, durante a oitava etapa da Operação Unha e Carne.

Até 3 de abril de 2026, quando Canella se afastou da chefia do município para concorrer às eleições, já haviam sido quitados R$ 25,1 milhões do montante total. Quem assumiu a administração foi a vice-prefeita Mariana Malta (União Brasil), que adotou o nome político Mariana Canella.

Os dados que embasaram a reportagem foram reunidos pela coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, com base em contratos e informações acessíveis no Portal da Transparência do município.

No documento da operação, a PF classifica Canella como um "patrono político" e um "articulador de alto escalão" do grupo sob investigação. De acordo com os investigadores, caberia a ele fazer a ponte entre o setor público e uma rede de postos de combustíveis que, em tese, servia para circulação e ocultação de dinheiro.

Duas firmas concentraram os valores mais altos e pertencem a Márcio Samary Machado, mais conhecido como Márcio Nit. A ECO 805 Comércio e Serviços faturou R$ 10,44 milhões com o fornecimento de kits de material escolar, ao passo que a Elite Turística obteve R$ 7,65 milhões para gerir a frota do transporte escolar da cidade.

O Supremo Tribunal Federal (STF) qualificou Nit como "operador e intermediário financeiro da organização criminosa". Segundo a apuração, ele atuaria na realização de pagamentos, na liquidação de compromissos financeiros e na transferência de valores entre pessoas físicas e jurídicas ligadas ao grupo.

Completam o levantamento outras três companhias: a FAB Mix Concretos, com R$ 7,16 milhões recebidos; a D A G G Tavares Projetos, que somou R$ 2,31 milhões; e a Opção Ativa, com R$ 1,34 milhão.

Nit aparece relacionado ao inspetor da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, o Pablo Russo, que também foi preso na operação. Ele responde por uma cadeia de mais de 20 postos de combustíveis e, segundo a PF, faz parte do núcleo operacional central do esquema.

Um dos episódios narrados pelos investigadores aconteceu em 30 de março de 2026, quando Pablo enviou a Nit um boleto no valor de R$ 748.689,86. Um dia depois, ele obteve o recibo do pagamento. A quitação partiu de uma empresa na qual o cunhado de Nit figura como sócio. A Polícia Federal não detalhou para que serviu essa operação financeira.

Em 11 de maio, Pablo teve acesso a outro comprovante, relativo a um repasse feito pela Elite Turística à FAB Mix, empresa contratada pela prefeitura para erguer uma escola.

Na visão dos investigadores, essa sequência de movimentações revela Pablo atuando como "operador de fluxos financeiros entre empresas do grupo". O inquérito, porém, não esclarece o propósito da transferência.

A D A G G Tavares Projetos, que embolsou R$ 2,31 milhões da prefeitura, foi escalada para reformar a Vila Olímpica de Belford Roxo. A companhia é de Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares, alvo de investigação por suspeita de esconder e disfarçar valores oriundos de atividades ilícitas.

De acordo com a PF, Pablo tinha acesso às credenciais de CNPJ dessa firma, além de dados sobre pagamentos, contratos e licitações. Para os investigadores, o quadro "sugere uso de informação privilegiada para favorecer a empresa em contratações públicas", que seriam uma eventual origem da lavagem de dinheiro e de vantagens irregulares.

Já a Opção Ativa, que levou R$ 1,34 milhão, atua na prestação de serviços de reboque e surge também numa apuração sobre contratação sem licitação feita pelo Detran. Esse órgão era comandado por Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil e um dos seis detidos na oitava fase da Operação Unha e Carne.

Entre os sócios da Opção Ativa está Felipe Correa da Cruz, irmão de Hugo Correa da Cruz, o Hugo Canelão (União Brasil), que ocupa a suplência de vereador em São Gonçalo.

Além dos repasses às cinco empresas, a gestão Canella assinou um contrato de R$ 2,8 milhões com o posto São Sebastião. A PF menciona o estabelecimento por causa de sua "expressiva movimentação em espécie", ainda que ele não estivesse na lista de 96 alvos da oitava fase da operação.

Um dos donos do posto é Bruno Viana de Souza, que também divide sociedade com Canella na Brumar Empreendimentos.

Márcio Canella conquistou a prefeitura de Belford Roxo em 2024, com 62,88% dos votos, e tomou posse em janeiro de 2025. Em abril de 2026, deixou o cargo após ser selecionado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para disputar uma cadeira no Senado na chapa de Douglas Ruas (PL).

A pretensão ao Senado foi barrada quando Canella acabou preso em flagrante, em julho, após a apreensão de um fuzil em seu veículo. Ele deixou a cadeia dias depois, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, e disputou uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), encerrando a votação como o segundo deputado estadual mais votado do estado.

Em outubro, o ex-prefeito foi novamente detido, dessa vez na oitava fase da Operação Unha e Carne. Depois dessa nova prisão, o Ministério Público Eleitoral pediu que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recuse o registro de sua candidatura, sob a alegação de vínculo com "conhecidas lideranças milicianas".

A Prefeitura de Belford Roxo não se manifestou sobre as perguntas enviadas pela reportagem, e a defesa de Canella não foi encontrada. O espaço segue aberto para posicionamentos.

Com informações de www.ururau.com.br.

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