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Política

Lista de boicote circula no WhatsApp e mira comerciantes de Cachoeiras de Macacu após eleição

Mensagens em grupos de WhatsApp pedem que moradores evitem estabelecimentos supostamente ligados à esquerda em Cachoeiras de Macacu. Ao menos 26 comércios aparecem na lista, e entidades e participantes reagem.

Lista de boicote circula no WhatsApp e mira comerciantes de Cachoeiras de Macacu após eleição
Imagem da reportagem

Uma lista compartilhada em grupos de WhatsApp estimula um boicote a empresas e prestadores de serviço em Cachoeiras de Macacu, no interior do Rio de Janeiro, sob a alegação de que seriam de esquerda. Segundo o levantamento divulgado, pelo menos 26 estabelecimentos são mencionados nas mensagens.

O g1 teve acesso a capturas de tela de um grupo intitulado "Direita Cachoeiras", que reúne cerca de 300 participantes. Nas conversas, os integrantes são orientados a descobrir qual comércio seria "de esquerda" e a não comprar nesses locais.

A reportagem tentou contato com Guilherme Villar, apontado como um dos organizadores do grupo "Direita Cachoeiras", mas não recebeu resposta. Em um vídeo publicado nas redes sociais, ele se posicionou contra a iniciativa.

"Algumas pessoas que não aceitaram a derrota de domingo fizeram uma lista com comerciantes de esquerda e de direita tentando, literalmente, promover o boicote", disse Villar na gravação.

Para ele, a atitude foi um erro, já que os comerciantes movimentam a economia da cidade, criam postos de trabalho e sustentam famílias locais. Villar também afirmou que considera a prática um desrespeito.

"Eu achei uma total falta de respeito, consideração e antidemocrático você vincular a profissão de uma pessoa com a ideologia política dela", declarou.

Entre os citados na lista está a professora de Educação Física Letícia Botelho, de 28 anos. Em uma das mensagens, um participante a rotulou como "petista" e disse ter deixado de frequentar suas aulas por causa disso.

Ao g1, Letícia relatou como reagiu ao saber da situação. Ela afirmou que atua com públicos variados, incluindo projetos sociais, pessoas da terceira idade e crianças.

"Eu trabalho com todo o tipo de público. Projetos sociais, terceira idade, crianças... Eu fiquei extremamente indignada com essa informação de que sou de esquerda e que eu falo mal das pessoas de direita. Eu sou uma pessoa que prezo por respeito e meus alunos sabem disso. Quando vi a mensagem, soube que era uma tentativa de me boicotar, porque não condizia com a verdade", afirmou.

A profissional disse que pretende entrar com uma ação judicial contra os responsáveis pela mobilização. Ela também se manifestou sobre o caso nas redes sociais.

"Isso é crime de incitação ao ódio e não pode ficar assim. Eu não estou com medo de perder os alunos que eu já tenho, porque eles sabem da minha essência, mas eu posso deixar de ganhar novos alunos e esse dano é irreversível", destacou.

Durante a mobilização, alguns integrantes do próprio grupo se posicionaram contra a iniciativa. Um deles escreveu: "Pessoal, uma informação, divulgar lista de empresas para fazer boicote por motivação e opinião política configura crime (...). Sei que todos estão apreensivos, mas devemos fazer as coisas de forma correta".

A Associação Comercial e Empresarial de Cachoeiras de Macacu (Acecam) também demonstrou preocupação com os efeitos da iniciativa sobre o comércio local e com a circulação de listas que classificam empresários conforme posicionamento político.

Em nota, a entidade declarou: "Divergências políticas fazem parte de uma sociedade democrática, mas não devem ser motivo para hostilidade, constrangimento ou tentativas de prejudicar o trabalho e o sustento de quem empreende em nosso município".

A associação acrescentou: "Cachoeiras de Macacu precisa de união, diálogo e incentivo ao empreendedorismo. Nosso comércio já enfrenta desafios diários e não precisa de mais divisões. Precisa de consumidores, oportunidades, geração de empregos e de uma comunidade que valorize quem trabalha e contribui para o desenvolvimento da cidade".

Até a última atualização da reportagem, o g1 havia procurado o Ministério Público Federal para saber se o caso foi denunciado, mas não obteve retorno.

Com informações de G1 Norte Fluminense.

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