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Polícia

Doze meses após a ação mais letal do Rio, ninguém foi responsabilizado pelas 121 mortes e apurações seguem abertas

Um ano depois da Operação Contenção, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, as circunstâncias das mortes seguem sem conclusão. Polícia Civil, PF e MPRJ ainda investigam o caso.

Doze meses após a ação mais letal do Rio, ninguém foi responsabilizado pelas 121 mortes e apurações seguem abertas
Imagem da reportagem

A preparação começou ainda de madrugada, em 28 de outubro de 2025. Mais de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar se organizavam para entrar nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio. Dentre as milhares de incursões feitas em comunidades cariocas nas últimas quatro décadas, aquela se tornaria a que mais matou.

Ao longo do dia, houve horas de tiroteio, ônibus queimados por criminosos nas vias da cidade e policiais avançando por ruas e becos das comunidades. No dia 29, o levantamento apontava 121 mortos, entre eles quatro policiais. Em 22 de novembro, o total de agentes mortos chegou a cinco, quando um policial que estava internado não resistiu.

Fotografias de corpos enfileirados numa rua da Vila Cruzeiro, na Penha, correram o mundo. De acordo com a polícia, os 117 mortos que não eram agentes caíram em confronto armado com as equipes. Já moradores e familiares das vítimas contaram ter havido tortura e execuções.

Doze meses depois, não existe conclusão sobre como as pessoas morreram nem sobre quem responde por isso. A Polícia Civil, a Polícia Federal e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) conduzem apurações.

No dia da ação, a Polícia Civil a descreveu como uma “megaoperação” voltada a capturar chefes criminosos do Rio e de outros estados, que, segundo a corporação, comandavam atividades a partir daquelas comunidades. A entrada nos complexos integrava a Operação Contenção, iniciada meses antes.

Para o governo fluminense, o conjunto de ações pretendia ser “uma ofensiva estratégica para conter e atacar o avanço territorial da facção criminosa Comando Vermelho” e “desarticular a estrutura financeira, logística e operacional da organização criminosa”.

O promotor de Justiça Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ, preside o Procedimento Investigatório Criminal (PIC) que apura as mortes dos dias 28 e 29 de outubro. “É uma situação sui generis, como nunca aconteceu na história da segurança pública do Rio de Janeiro, tanto que é considerada a operação mais letal da história”, diz.

Conforme o promotor, o MPRJ ouviu 255 policiais civis e militares que atuaram na operação e 61 pessoas presas durante ela. Os promotores procuraram parentes de todos os mortos e conseguiram conversar com 45 deles.

O órgão também acompanhou as necropsias do Instituto Médico-Legal (IML) e continua examinando laudos periciais e vídeos das câmeras corporais dos agentes. As gravações obtidas somam 4 mil horas, mas não cobrem toda a atuação de cada policial. Segundo as autoridades de segurança, as baterias acabaram após horas de operação.

De início, ao menos dois casos chamaram a atenção dos peritos do MPRJ e foram classificados como “atípicos”: uma morte por tiros dados à curta distância e uma decapitação.

“[Os dois casos] não são conclusivos e permanecem ainda em apuração no bojo dessa investigação, que apura a totalidade das mortes, não só dos civis, como também dos policiais”, ressalta Corrêa. “É um elemento de prova, um elemento que vai ser trazido aos autos junto com os demais, com as demais análises sobre depoimentos, câmeras corporais [usadas pelos policiais]”.

O promotor lembra, porém, que não houve perícia no local dos crimes, o que torna mais difícil entender o ocorrido. “Então este é mais um elemento que entra na análise, de tudo que aconteceu”, afirma. “[Mas] o Ministério Público espera e pretende dar essas respostas definitivas sobre o que de fato aconteceu naquele dia”.

As execuções relatadas não foram os únicos excessos atribuídos a policiais na operação. O MPRJ já encerrou algumas apurações sobre desvios de conduta. Até junho deste ano, 27 policiais haviam sido denunciados à Justiça por crimes como desvio de fuzis apreendidos, furto de peças de carro e outros bens, invasão de domicílio e constrangimento de moradores.

Além das gravações interrompidas pelo fim das baterias, verificou-se que várias câmeras foram desligadas ou tapadas de propósito. Um levantamento do MPRJ sobre 51 equipamentos do Batalhão de Operações Especiais (Bope) indicou que ao menos 17% foram desligados intencionalmente. Em 7,8%, há sinais de que a lente foi coberta para impedir o registro em certos momentos.

Em março, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgou relatório apontando falhas na condução da operação e da investigação. O texto menciona a tática de encurralar criminosos numa área da comunidade, estratégia militar conhecida como “martelo e bigorna”, “cujo objetivo seria confinar o oponente, restringir rotas de fuga e exercer pressão convergente em perímetro delimitado até sua ‘neutralização’”.

A quantidade de mortos, de início 121, sobrecarregou o IML. A comissão citou “relatos de armazenamento inadequado dos corpos” e atraso na entrega aos parentes.

O documento registrou ainda limites iniciais ao acesso da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro a laudos de autópsia e relatórios periciais, “o que limitou sua capacidade de acompanhar e fiscalizar os procedimentos forenses”, em nome das famílias vulneráveis que o órgão representa. Depois, a Defensoria obteve os documentos e ainda não terminou de apresentá-los às famílias.

Entre os 99 presos na ação, 17 tinham mandado de prisão. O relatório informa lesões em 17 detidos, e outros 36 tiveram laudos inconclusivos quanto a maus-tratos e tortura. Uma pessoa foi solta sem ter passado por exame de corpo de delito.

Os corpos foram retirados da mata pelos próprios moradores. Segundo a CIDH, houve relatos de que alguns “apresentavam marcas que poderiam ser indicativas de execução extrajudicial, tortura, maus-tratos ou lesões perfurocortantes”.

A comissão também destacou a diferença entre mortos policiais (cinco) e não policiais (117). Para ela, a desproporção levanta dúvidas sobre a finalidade dos disparos e exige exame rigoroso sobre se a força letal foi o primeiro recurso, até em situações em que seria possível imobilizar a pessoa.

“Ainda que se considere a hipótese de que civis estivessem armados e vinculados à organização criminosa, o padrão observado não se coaduna com cenário típico de confronto armado regular.” A CIDH acrescenta que havia corpos com vários tiros na cabeça, na boca, nas costas, nas axilas e no tórax, em posições incompatíveis com troca de tiros.

“Foram relatados casos de pessoas vistas vivas sob custódia policial e posteriormente encontradas mortas, além de indícios de amarras, lesões perfurocortantes e disparos à queima-roupa”, descreve o relatório. A comissão concluiu ainda que “o modelo atual de investigação da violência policial no Brasil, particularmente no estado do Rio de Janeiro, apresenta deficiências estruturais que comprometem a independência, imparcialidade e eficácia das apurações”.

Pesquisadoras ouvidas pelas equipes da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) afirmam que, apesar das mortes e de o governo estadual ter tratado a ação como bem-sucedida, o controle armado do território nos dois complexos não mudou de forma relevante.

“O que a gente percebe é o que percebemos em todas as operações violentas no Rio de Janeiro. O saldo é nulo ou negativo. A gente fala nulo porque nada mudou”, diz Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado. “A população continua submetida às mesmas rotinas violentas do Comando Vermelho após a operação. A liderança do Comando Vermelho é a mesma, as pessoas do Comando Vermelho que morreram foram substituídas por outras pessoas”.

Para ela, o saldo negativo aparece porque essas ações ampliam os traumas dos moradores. “É uma população que viu seus entes queridos e pessoas conhecidas serem exterminadas. [Viram] em praça pública, os corpos enfileirados. A troco de nada, a gente vê pessoas que lidam há um ano com esse trauma, acumulado há tantos outros, de que essas vidas são entendidas pelo poder público como dispensáveis. Por quê? Porque, em nome de mudança nenhuma, pessoas são exterminadas”.

Carolina Grillo, pesquisadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), também avalia que a operação, como tantas outras, não alterou de forma significativa a segurança pública no Rio.

“Os moradores passaram por uma cena de filme de terror para nada. No segundo em que a polícia foi embora, o Comando Vermelho continuava controlando o território. Supostamente, essa operação era para prender o Doca [liderança criminosa local]. Segundo os moradores, todo mundo já sabia que ia ter operação e que o Doca já tinha saído na véspera”, afirma.

Ela acrescenta que, além de expor a população a risco e causar caos na cidade, a ação não protegeu os próprios policiais. “A operação foi um verdadeiro desastre, que resultou em cinco policiais mortos, ou seja, sem um planejamento adequado, que pensasse em proteger seus próprios agentes”, ressalta.

“Foi uma operação que não teve nenhum compromisso com a vida. Cerca de 60 corpos foram largados na mata, porque era tanta gente que a polícia matou que eles não eram capazes de carregar os corpos das suas vítimas”, diz a pesquisadora.

A Agência Brasil pediu entrevista a representantes das polícias Civil, Militar e Federal e da Secretaria Estadual de Segurança Pública. A PM respondeu que não seria possível conceder entrevista, e a PF disse que não comenta investigações em andamento. A Polícia Civil e a Secretaria de Segurança não responderam ao pedido.

Rio de Janeiro (RJ), 31/10/2025 - Moradores, familiares e representantes da sociedade civil se reúnem na comunidade da Vila Cruzeiro para manifestação de repúdio à Operação Contenção que deixou 121 mortos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.  Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Com informações de Noticia Urbana.

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