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Polícia

Casa de religião afro é alvo de vandalismo sem roubo e líder fala em intimidação na Região dos Lagos

Fiéis encontraram o Igbé Ilé Osàlá Afayiá revirado após um evento religioso. Nada foi levado, e o pai de santo Anderson de Oxalá atribui o ataque à intolerância. Lideranças citam outros episódios em Araruama.

Casa de religião afro é alvo de vandalismo sem roubo e líder fala em intimidação na Região dos Lagos
Imagem da reportagem

Um espaço de Candomblé situado em Iguabinha, que pertence a Araruama, na Região dos Lagos fluminense, sofreu invasão e teve parte de seus ambientes destruídos durante o fim de semana. Quem percebeu o estrago foram os fiéis, ao voltarem de uma celebração feita em outro local na segunda-feira (2), feriado de Finados.

O registro na delegacia aconteceu na quarta-feira (4). De acordo com integrantes da casa, o pai de santo Anderson de Oxalá tinha estado no Igbé Ilé Osàlá Afayiá na sexta-feira (31), e tudo estava em ordem naquele momento.

Ao chegarem, os frequentadores depararam-se com sinais de depredação. Anderson destaca que não sumiu nenhum objeto, o que, para ele, alimenta a suspeita de intolerância religiosa. Ele entende que casos assim mostram o preconceito que seguidores de religiões de matriz africana enfrentam há muitos anos.

"Eu me sinto desprotegido. Se tivessem levado alguma coisa, eu saberia que foi um simples assalto. Mas não foi. Foi intolerância religiosa. Foi para provar que eles têm força, que nós somos fracos e que eles podem fazer o que bem querem dentro da nossa casa", declarou.

A filha de santo Dirce Castro detalhou o que foi visto na cozinha: porta arrancada, comida espalhada e móveis quebrados. "Já eram 18h e pouco da noite quando a nossa irmã chegou e se deparou com a cozinha. Arrancaram a porta, rasgaram embalagens de comida, moveram e quebraram móveis, mas nada foi roubado", disse.

Anderson acredita que os invasores entraram pelos fundos do terreno. Segundo ele, ali há um ponto cego, que escapa tanto da câmera da escola quanto da subprefeitura, ambas em frente ao terreiro.

"Entraram justamente pelos fundos, onde a câmera da escola e da subprefeitura (na frente ao terreiro) não consegue alcançar, um ponto cego. Forçaram a porta da cozinha, arrancaram a porta e a deixaram deitada do lado de fora. Depois quebraram assentamentos, abriram armários, reviraram tudo, misturaram comida e quebraram louças", relatou.

O sacerdote contou que outras áreas também foram atingidas. "Logo depois forçaram a porta do barracão e entraram no nosso sabaji [um cômodo dentro do barracão]. Misturaram tudo. Arrancaram as roupas das araras, abriram as malas dos filhos de santo e reviraram tudo. E, como disse, não levaram nada. Fomos simplesmente intimidados", afirmou.

Dados do Painel da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos indicam 329 denúncias de violação à liberdade religiosa ou de crença no estado do Rio de Janeiro de janeiro a outubro de 2026. O texto original informa que, em 2025, no mesmo intervalo, o total também foi de 329, com quatro registros em Araruama. O painel não traz informações do município para 2026.

O quadro inquieta outros líderes religiosos locais. Relatos apontam que um segundo terreiro de Candomblé, igualmente em Iguabinha, foi invadido nas semanas anteriores. Em julho, no bairro Areal, também em Araruama, o altar de uma casa de Umbanda foi queimado.

Glaucia Azevedo, que é Ajoyê e Ekeji do Ilê Asé Opó Aganju e representa o Coletivo de Terreiros de Araruama, contou que algumas casas já passaram a reforçar a segurança. "Pra você ter uma ideia, o Ilê Axé Opó Obebomim, do Pai Arilson Lisboa, também em Iguabinha, hoje mesmo já solicitou wi-fi e câmeras de segurança. A gente vai ter que trabalhar nisso, assim como vários outros aqui de Araruama. Uma loucura!", disse.

Conforme o coletivo, as agressões contra terreiros na cidade estão aumentando. A recomendação a mães e pais de santo é registrar boletim de ocorrência e guardar fotos e vídeos dos episódios.

"Eu costumo dizer para as mães e pais de santo que, quando a pedra vem, ela não quer saber se somos de Candomblé ou de Umbanda. Ela simplesmente vem. Ninguém invade uma igreja evangélica, poucos casos em igrejas católicas. Então, os terreiros se encontram na ponta de toda essa violência", afirmou Glaucia.

A reportagem original aguardava posicionamento da Polícia Civil sobre a quantidade de casos denunciados e sobre o andamento das investigações dos episódios mencionados.

Com informações de G1 Norte Fluminense.

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