Anvisa libera pílula de semaglutida contra obesidade: entenda por que ainda não chegou às prateleiras brasileiras
A Anvisa autorizou a versão em comprimido do Wegovy, da Novo Nordisk, mas o medicamento ainda não tem preço nem data de venda no país. Veja os próximos passos e como funciona a nova forma de tratamento.
Nesta quarta-feira (4/11), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu aval à forma em comprimido do Wegovy, medicamento contra obesidade produzido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk.
Trata-se do primeiro remédio oral da categoria dos agonistas de GLP-1, grupo ao qual pertencem as conhecidas injeções popularmente chamadas de canetas para emagrecer. A liberação no Brasil vale para o tratamento de obesidade e de sobrepeso.
A pílula contém a mesma substância ativa da caneta, a semaglutida. A grande diferença está na frequência: enquanto a caneta é aplicada uma vez por semana, o comprimido é ingerido diariamente.
Para a endocrinologista Cynthia Valério, presidente eleita da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), a chegada de um GLP-1 em forma de comprimido "representa uma nova ferramenta que vai cada vez mais ampliar as possibilidades de medicações que podem ser utilizadas em diferentes perfis de pacientes".
Por enquanto, não há valor definido nem previsão exata de comercialização no território nacional. Em comunicado enviado à imprensa, a Novo Nordisk afirma somente que o produto deverá aparecer nas farmácias do país "nos próximos trimestres".
A BBC News Brasil questionou a companhia sobre a estimativa de lançamento e sobre o preço, porém não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem.
Lá fora, a pílula já é comercializada nos Estados Unidos desde janeiro. Em seguida, passou a ser vendida nos Emirados Árabes Unidos, no Reino Unido e na Alemanha.
Antes que a empresa possa iniciar as vendas no Brasil, há etapas a cumprir. A BBC News Brasil também indagou a Novo Nordisk se o pedido de precificação já foi encaminhado à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), e a resposta ainda é aguardada.
O pedido de registro do comprimido foi protocolado pela Novo Nordisk junto à Anvisa em 30 de janeiro deste ano. A determinação foi divulgada no Diário Oficial da União por intermédio da Resolução 4.249/2026.
A indicação alcança adultos com obesidade, isto é, com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30. Também contempla adultos com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) que apresentem ao menos uma enfermidade ligada ao excesso de peso, como hipertensão ou diabetes tipo 2. Em qualquer situação, o uso deve estar associado a ajustes na alimentação e à prática regular de exercícios físicos.
Os Estados Unidos foram o primeiro território a dar aprovação ao comprimido, em dezembro de 2025, por meio da Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos do país. As vendas tiveram início em 5 de janeiro. Quem arca com o custo sem plano de saúde desembolsa entre US$ 149 (cerca de R$ 816) mensais na dose inicial e US$ 299 (aproximadamente R$ 1,6 mil) nas doses mais elevadas.
De acordo com a Novo Nordisk, mais de 7 milhões de receitas do comprimido já foram atendidas nos Estados Unidos desde o seu lançamento.
Em junho, os Emirados Árabes Unidos passaram a ser o primeiro país fora dos Estados Unidos a comercializar o medicamento. No Reino Unido, o órgão regulador local deu aprovação ao comprimido também em junho, e as vendas começaram em julho, nas farmácias privadas. Até o momento, o remédio não integra a oferta do sistema público de saúde britânico, o NHS.
A União Europeia autorizou o comprimido em julho, após parecer favorável da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A Alemanha se tornou o primeiro integrante do bloco a comercializá-lo, a partir de 1º de setembro. A pílula também recebeu aval no Bahrein.
A Novo Nordisk afirma que planeja disponibilizar o comprimido em outras nações nos próximos meses.
A semaglutida reproduz a ação do GLP-1, hormônio liberado pelo intestino após as refeições. Essa substância avisa o cérebro de que o organismo já foi alimentado, o que diminui a fome, e também retarda o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de saciedade.
Ao ser ingerida, grande parte da substância é perdida no trato digestivo antes de alcançar a corrente sanguínea. Essa é a razão para a dose da pílula ser bem mais alta: 25 mg diários na fase de manutenção, ante 2,4 mg semanais da caneta.
O tratamento tem início com 1,5 mg e a quantidade vai sendo elevada gradualmente, passando por 4 mg e 9 mg, até atingir 25 mg. O comprimido precisa ser tomado em jejum e com pouca água. Após a ingestão, é necessário aguardar no mínimo 30 minutos para comer, beber ou usar outros medicamentos.
De acordo com a Anvisa, quem utiliza a caneta poderá migrar para o comprimido, assim como quem toma o comprimido poderá voltar à caneta, sempre que o médico entender que a troca é apropriada.
A autorização foi sustentada sobretudo pelo estudo OASIS 4, divulgado na revista científica The New England Journal of Medicine. Foram envolvidos 307 adultos sem diabetes, com obesidade ou sobrepeso acompanhado de alguma doença associada, e os desfechos foram avaliados após 64 semanas.
No grupo que utilizou o comprimido, a redução média de peso chegou a 13,6%. Já no grupo que recebeu placebo, a queda foi de 2,2%. Quase um terço dos voluntários que usaram a pílula eliminou 20% ou mais do peso corporal.
A Novo Nordisk sustenta que a perda de peso alcançada com o comprimido é semelhante à obtida com a caneta de 2,4 mg. Conforme a Anvisa, o tratamento também trouxe melhora em diversos indicadores de saúde cardiovascular e metabólica dos participantes.
Os efeitos indesejados mais frequentes foram do tipo gastrointestinal, como enjoo e diarreia. Eles atingiram 74% dos que tomaram o comprimido, frente a 42% no grupo placebo, e na maioria das vezes foram de intensidade leve ou moderada. Aproximadamente 7% dos pacientes que usaram o remédio interromperam o tratamento por causa de reações adversas, enquanto no grupo placebo essa taxa foi de 6%.
O Brasil já dispunha de um comprimido à base de semaglutida, o Rybelsus, também fabricado pela Novo Nordisk. Ele é voltado ao diabetes tipo 2, em doses menores, e não é indicado para o combate à obesidade.
A chegada da pílula acontece em um mercado que sofreu mudanças em 2026. A patente da semaglutida expirou no Brasil em 20 de março e, desde agosto, a Anvisa já liberou versões genéricas da semaglutida injetável.
Pela legislação, os genéricos devem ter preço no mínimo 35% inferior ao do medicamento de referência.
A principal rival do comprimido da Novo é o Foundayo (orforglipron), pílula diária contra obesidade da norte-americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro. O Foundayo recebeu aprovação nos Estados Unidos em abril, mas ainda não possui registro no Brasil.
Conforme a endocrinologista Cynthia Valério, a versão oral deve beneficiar quem rejeita injeções, quem prefere a administração diária em vez da semanal e quem enfrenta dificuldades para armazenar a caneta, como ocorre com viajantes frequentes.
Diferentemente da caneta, o comprimido dispensa armazenamento refrigerado.
Segundo ela, a pílula pode tornar mais simples o início do tratamento e o aumento progressivo da dose em pacientes que fazem uso de vários medicamentos ou convivem com diversas doenças. Essa forma de iniciar permite observar com mais cuidado os efeitos colaterais e a tolerância ao remédio.
"O nosso maior desafio hoje é a adesão de longo prazo e a perda de peso sustentada", declara a médica. Quem abandona o tratamento deixa de manter os ganhos que alcançou.
Ela faz um alerta: a pílula não produzirá o resultado esperado se for ingerida junto de outro medicamento, com algum líquido diferente de água ou sem obedecer ao período de jejum. "Acaba sendo um desperdício de energia, de dinheiro, de tempo do paciente sem que haja boa resposta", afirma. "O acompanhamento médico, ele é sempre necessário."
Para Valério, assegurar o acesso ao tratamento da obesidade, seja pelo SUS ou pelos planos de saúde, é fundamental. "Entendemos que hoje ainda temos esse grande desafio de incorporação dessas tecnologias", comenta.
Na avaliação da especialista, o comprimido não deverá estar amplamente disponível no começo. Ela afirma ainda que a Abeso lutará para que as novas terapias sejam oferecidas tanto pelo SUS quanto pela saúde suplementar.
Com informações de CAMPOS 24HORAS.
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