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Política

Celular de Vorcaro expõe teia de patrocínios, pedidos a redações e cobranças por imagem favorável do Master

Mensagens que a PF extraiu do telefone do ex-banqueiro do Master mostram contatos com executivos, sites, jornais e influenciadores. Há demissão na Globo, negativas de Prioli e da Folha e citação ao ministro Nunes Marques.

O material que a Polícia Federal retirou do telefone de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro que comandava o Banco Master, vem expondo nos últimos dias uma série de vínculos com dirigentes de empresas de comunicação, repórteres, veículos noticiosos e produtores de conteúdo na internet. As conversas, publicadas por vários jornais, tratam de acertos de patrocínio, de debates sobre o teor de reportagens e de planos para proteger a reputação do banco.

Aparecem nas revelações a influenciadora e advogada Gabriela Prioli, Frederic Kachar, que dirigia a área de jornais impressos e rádio do Grupo Globo, Lilian Tahan, CEO do Grupo Metrópoles, e o empresário do setor de mídia Flávio Carneiro. Entre os veículos citados estão ainda Metrópoles, Folha de S.Paulo, Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo e CartaCapital.

Tudo isso surge no contexto das apurações sobre o Master, investigado por suspeitas de fraudes financeiras e por manter uma estrutura destinada a influenciar o debate público. Os diálogos indicam níveis variados de proximidade e de envolvimento, mas, isoladamente, não comprovam irregularidade de todas as pessoas e empresas mencionadas.

Repasses de R$ 20 milhões ao Metrópoles

De acordo com o que a PF encontrou, Vorcaro dava opiniões, editava e negociava o conteúdo de matérias do portal Metrópoles pelo menos desde 2024. Os investigadores também localizaram conversas segundo as quais ele aprovou no mínimo R$ 20 milhões em pagamentos ao site, a partir de maio de 2024, e chamou essa parceria de “coisa mais importante”.

A discussão sobre os valores consta em mensagens trocadas com Ana Lúcia Matos, superintendente de Comunicação e Marketing do Master até o final do ano passado. Ela escreveu: “Daniel. Tá caro esse metrópoles. Fazendo conta aqui. Posso falar com eles? Fecho 12-15 milhões que eh bastante! Em junho ja pagamos 1 milhão”. A resposta, conforme o material obtido pela PF, foi: “Nao! Coisa mais importante nossa vida é esse metropoles”.

R$ 516,4 mil em publicidade na Folha

A Folha de S.Paulo reproduziu a reportagem do UOL sobre o Metrópoles. Como resposta, o Metrópoles divulgou texto afirmando que o jornal paulista segurou por no mínimo 22 dias uma matéria sobre Vorcaro e abrandou seu conteúdo depois de solicitações do banqueiro e de Guilherme Barros, seu gestor de crise.

Para o Metrópoles, a reportagem teria absorvido dados favoráveis ao Master enviados pela assessoria de Vorcaro. O portal questionou ainda um encontro do banqueiro com o diretor de redação da Folha, Sérgio Dávila, não comunicado aos leitores, e apontou alterações posteriores na versão digital. Também revelou que Barros recebeu R$ 1 milhão de Vorcaro, valor atrelado ao resultado do seu trabalho.

A Folha rejeitou ter atrasado ou suavizado o texto e disse que apenas aguardou o prazo pedido para ouvir Vorcaro antes de publicar. O jornal confirmou a reunião entre Dávila e o banqueiro, mas explicou que ela foi pedida por Barros para que o contraditório fosse apresentado.

Sobre o R$ 1 milhão pago a Barros, a Folha declarou que só soube do valor após o vazamento das mensagens. Admitiu ter recebido R$ 516,4 mil em anúncios do grupo de Vorcaro ao longo de cinco anos e rebateu o Metrópoles, afirmando que o portal embolsou cerca de R$ 20 milhões do banqueiro.

Gabriela Prioli e os vídeos sobre o Master

Reportagem de O Estado de S. Paulo, publicada na sexta-feira (16), trouxe mensagens indicando que Vorcaro acompanhava a produção de vídeos de Gabriela Prioli sobre o Banco Master. Novamente, as conversas foram entre o ex-banqueiro e Ana Lúcia Matos.

Num dos diálogos, a executiva relata a assinatura de um contrato de 12 meses envolvendo a influenciadora. As mensagens sugerem que Vorcaro via os vídeos antes de irem ao ar e pedia mudanças. Em julho de 2025, Ana Matos disse a ele que Prioli havia acatado sugestões feitas antes. Os registros citam ao menos quatro publicações ligadas à estratégia de comunicação do Master.

Segundo o jornal, o público via os vídeos como opiniões independentes de uma comunicadora com mais de 6 milhões de seguidores nas redes.

Prioli negou as acusações. Na sexta, afirmou nunca ter tido relação comercial com Vorcaro e disse que ele jamais editou, aprovou ou orientou o que ela publicava. Questionou também a falta de documentos que provem o suposto contrato e os pagamentos citados.

De acordo com a equipe da apresentadora, nenhuma nota fiscal foi emitida ao Banco Master ou a empresas ligadas a Vorcaro. Ela informou ainda que está tomando providências jurídicas contra as acusações.

Demissão de executivo da Globo

Outro episódio da semana atingiu Frederic Kachar, o Fred Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo. Ele foi desligado na quinta-feira (15), depois que vieram a público mensagens trocadas com Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025.

Reportagens do UOL e da Folha mostraram que as conversas tratavam de patrocínios, pedidos ligados a matérias, debates sobre a cobertura do Master e temas pessoais. Em uma delas, Vorcaro buscou Kachar para divulgar a marca da então namorada, a influenciadora Martha Graeff. Os registros incluem ainda conversas sobre eventos e encontros privados.

Kachar trabalhava havia 29 anos na Globo e respondia por operações que abrangiam os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, as revistas da Editora Globo e o Sistema Globo de Rádio, que inclui a CBN.

Em nota, o Grupo Globo disse que as conversas evidenciaram uma relação imprópria entre o executivo e um anunciante, e reafirmou seu compromisso com ética, transparência e independência editorial.

Influência sobre sites noticiosos

Matéria do UOL divulgada na quinta (15) afirma que Vorcaro teria usado patrocínios, aportes e acordos comerciais para ampliar seu poder sobre veículos de comunicação. Conforme o texto, mensagens do celular dele apontam interferência em conteúdos de Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo e CartaCapital.

Um dos casos é o do PlatôBR, cujo quadro de sócios inclui a Foone, empresa ligada a Flávio Carneiro, que era conselheiro de Vorcaro. Segundo o UOL, em março de 2025, dois dias depois de anunciada a compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília), Carneiro combinou com Vorcaro enviar textos antes da publicação para avaliação.

Nessa ocasião, o assessor teria mandado ao ex-banqueiro, antes de sair, uma entrevista do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.

Quanto ao Brazil Journal, as conversas citam o fundador, Geraldo Samor, e negociações sobre publicação de conteúdos. A IstoÉ surge em diálogos sobre investimentos e intermediação de reportagens.

O Diário do Centro do Mundo é lembrado em registros sobre pagamentos e textos favoráveis ao ex-banqueiro. Já a CartaCapital aparece em tratativas financeiras, entre elas possíveis investimentos e venda. A revista nega interferência editorial.

Ministro do STF também é citado

As revelações não se limitaram à imprensa. Reportagem da revista Piauí, publicada na quinta (15), trouxe mensagens segundo as quais Vorcaro teria organizado e bancado, em fevereiro de 2025, em São Paulo, uma festa com garotas de programa para o ministro do STF Kassio Nunes Marques.

Conforme a revista, os diálogos mostram que o ex-banqueiro participou da organização do evento e de gastos a ele associados. Nunes Marques negou ligação com a festa, disse não ter autorizado ninguém a agir em seu nome e declarou não ter relação com Vorcaro nem com o Master.

Investigação

Os novos dados se somam às apurações da Polícia Federal sobre pessoas ligadas ao Master e ao chamado Projeto DV. Segundo os investigadores, essa estrutura teria recorrido a influenciadores, jornalistas e estratégias de comunicação para defender os interesses do banco e de seu controlador.

Entre as suspeitas estão pagamentos por conteúdos favoráveis à instituição, ataques a críticos e tentativas de desacreditar o trabalho do Banco Central.

Com informações de CAMPOS 24HORAS.

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