Estudo de R$ 5,6 milhões busca saídas para o avanço do mar, que já levou mais de 500 casas em Atafona
Uma equipe multidisciplinar iniciou a investigação da erosão costeira em Atafona e no Açu, em São João da Barra, com previsão de 18 meses de trabalho e entrevistas com moradores.
A SEACaruso, subsidiária do Grupo Caruso contratada pela prefeitura após licitação, começou a investigar o avanço do mar em São João da Barra, no Norte Fluminense. O trabalho tem investimento de R$ 5,6 milhões.
Os distritos de Atafona e Açu convivem há pelo menos sete décadas com a erosão costeira. Segundo monitoramento da Universidade Federal Fluminense (UFF), desde a década de 1950 o mar já levou mais de 500 casas e um prédio, e chegou a atingir sete quarteirões.
Os trabalhos de campo do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) começaram nesta terça-feira (6). Na próxima semana, a etapa de escuta da comunidade prevê a entrevista de pelo menos 211 moradores, em módulos de atendimento instalados em Atafona e Açu.
O estudo deve durar 18 meses e reúne profissionais de 29 áreas diferentes.
Francisco Caruso Jr., geocientista e CEO do Grupo Caruso, afirmou ao g1 que os trabalhos avançam por etapas. Agora, a equipe se prepara para fazer os perfis de praia, levantamento que depende de maré adequada.
"Estamos aguardando apenas a quadratura da lua para ter uma condição propícia para esse tipo de levantamento. Em seguida, começaremos a etapa de levantamentos oceanográficos, com medições de marés, correntes e ondas, além de uma série de estudos no meio aquático que vão fornecer subsídios para a modelagem que estamos propondo realizar, a fim de identificar as melhores alternativas para conter a erosão costeira no município", explicou.
Os dados servirão de base para futuras decisões e projetos de intervenção na região, a partir de um diagnóstico detalhado da dinâmica do fenômeno, que já afeta o cotidiano dos moradores.
Lúcia Helena, marisqueira de 58 anos que vive em Atafona há mais de 40 anos, perdeu a casa e também teve o trabalho interrompido. Ela foi ouvida pelo g1.
"Eu perdi a minha casa em 2021 e senti uma tristeza imensa, porque perdi muitas coisas, incluindo os meus móveis. Consegui um aluguel social, mas os vizinhos também foram afetados. Eu trabalhava no meu quintal, onde limpava peixe e camarão", disse.
A oceanógrafa Clarissa Menin, diretora técnica da SEACaruso Soluções Oceânicas & Energias Renováveis e responsável pela condução do EVTEA, explica que pesquisas anteriores identificam comportamentos diferentes ao longo da costa de São João da Barra.
Em Atafona, na foz do rio Paraíba do Sul, estudos históricos analisados registram perdas e danos em até sete quarteirões da costa até 2019. Já em alguns trechos mais ao sul, houve avanço da faixa de areia.
"Precisamos agora aprofundar essa compreensão e entender como oceano, rio, sedimentos, ambientes naturais e ocupação do território se relacionam", conta Clarissa.
Nesta primeira fase, as equipes começaram as medições de correntes e níveis da água no rio Paraíba do Sul, além do monitoramento de ondas, correntes marítimas e sedimentos na faixa costeira.
Módulos de atendimento serão instalados em Atafona e Açu e funcionarão a partir da próxima terça-feira (13). O objetivo é esclarecer dúvidas e trocar informações entre moradores e a equipe técnica.
Os moradores entrevistados vão registrar suas percepções sobre as mudanças na costa e sobre atividades ligadas à pesca, navegação, turismo e lazer.
Depois da etapa de campo, os dados serão integrados a modelos matemáticos que simularão o comportamento de ondas, correntes e sedimentos. Entre as alternativas que poderão ser avaliadas estão a reposição de areia, a recuperação de praias e dunas e a implantação de estruturas de proteção costeira.
Ao fim dos 18 meses, o EVTEA deve consolidar uma base técnica, ambiental, econômica e social. A intenção é orientar decisões futuras sobre o enfrentamento da erosão costeira em Atafona e no Açu e apoiar a busca por recursos para eventuais obras.